Opinião - Ninguém erra por 80 tiros

10/04/2019

Estamos fatalmente condenados aos erros. A natureza humana é falha. Enganamo-nos com horários, prazos, valores e medidas cotidianamente. Quando a Dona Eulália desanda a receita por ter colocado uma xícara de farinha a mais, ou o Sr. Armando entrega, por engano, R$10,00 a mais de troco, entendemos e os desculpamos. A receita é refeita e o troco devolvido. Algumas medidas, no entanto, não podem ser enquadradas na mesma categoria.

Enquanto esse artigo é escrito, acontece o velório do músico Evaldo dos Santos Rosa, morto em um carro fuzilado por 80 tiros em ação do exército brasileiro. O Comando Militar do Leste, responsável pela tropa, informou que 12 militares estão presos e prestarão depoimento na tarde de hoje. A ação realizada em Guadalupe, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é resultado prático de uma ideologia belicista que avança a passos largos na sociedade brasileira.

É missão do exército brasileiro "contribuir para a garantia da soberania nacional, dos poderes constitucionais, da lei e da ordem, salvaguardando os interesses nacionais e cooperando com o desenvolvimento nacional e o bem-estar social". Oitenta tiros disparados contra um veículo de passeio à luz do dia não contribuem para a garantia dessa missão. Não é mera coincidência que a trilha de tropa de elite pergunte e responda: "Homens de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão".

Foto: Correio de Carajás

Duas mulheres, uma criança e dois homens, todos brasileiros, foram traídos pelo Estado em seu dever mais básico, a garantia da cidadania. Ao cruzarem uma blitz e terem seu veículo confundido com o de assaltantes, cinco pessoas tornaram-se alvos da força nacional em seu próprio solo. Qual foi a última vez em que se teve notícia de uma ação semelhante em um regime democrático de direito?

O exército brasileiro levou apenas algumas horas para declarar que suas tropas responderam à "injusta agressão" por parte de "assaltantes". Não poderia ser diferente. Quando as forças armadas atuam, respeitam a uma única ordem: atira-se primeiro, investiga-se depois. Esse é o seu modus operandi. Militares do exército atiram para matar, são treinados para esse fim. Tanto por isso, não deveriam coordenar operações e abordagens de rua.

Mudando de pau para cavaco, lembro que não admitimos mais dizerem por aí que o acontecido em Brumadinho há pouco mais de dois meses foi um acidente. O rompimento de uma barragem, como já indicam as análises, é fruto de uma sucessão de negligências. Uma xícara de farinha a mais não é o mesmo que anos de negligências, atropelos de legislação e compra de laudos. Que os devidos nomes sejam dados. O que ocorreu em Brumadinho foi um crime.

Foto de Evaldo: Reprodução Facebook

O carro de Evaldo foi atingido por 80 tiros de fuzil. Isso aconteceu porque havia um militar empunhando um fuzil e houve ordem para que os tiros fossem dados. É evidente uma ação deliberada, fruto de uma cadeia de acontecimentos. Parte da sociedade brasileira impôs a si uma agenda militar, belicista e armamentista.

Podemos escolher como classificaremos a nossa situação atual. Colocar tudo isso na conta de eventos isolados é negligenciar a vida. Não se pode admitir que isoladamente aconteça, vez por outra, a morte de um cidadão alvejado por 80 balas de fuzil. Assim como, é inadmissível que se aceite passivamente um ataque de dois jovens à Escola Professor Raul Brasil, em Suzano.

Militares atacam por ordem, assim como, dois jovens entram em uma escola com um plano de execução como produto claro de uma doença social. Por isso, precisamos escolher o diagnóstico correto. Nossa sociedade precisa de tratamento. Não é somente um distúrbio, estamos ideologicamente tendendo para a barbárie.

Modelo Panóptico, utilizado por Foucault

Resta clara a solução: Menos "A Arte da Guerra" e mais "Vigiar e Punir". Michel Foucault foi claro em dizer que a punição para um crime precisa evitar que ele recomece. Isso ocorre com clareza de punições, critérios bem estabelecidos e razoáveis e possibilidade de ressocialização. Em suma, a punição mais violenta que o próprio crime, somente fortalece a natureza do criminoso.

Ainda que Evaldo fosse um assaltante e, ainda que o carro fosse mesmo roubado, com 80 tiros o problema não é resolvido. Caminhamos para o abismo, agravando a cada dia a violência com mais violência. Estamos punindo pretensos crimes de roubo com oitenta tiros de fuzil.

Uma xícara talvez, mas, certamente ninguém erra por oitenta tiros. Quando um militar decide disparar tantas vezes, a decisão já está tomada. Atira-se para matar porque "bandido bom é bandido morto". Ainda que o bandido não seja de fato bandido.


Gustavo Dias

Editor-Chefe

Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais.