Campanha Janela Aberta

18/02/2019

O NOSSO BELO HORIZONTE
DE JANELAS ABERTAS

Gustavo Dias

Há conversas que despertam o que há de melhor em nossa alma. Tomamos consciência disso quando os nossos valores mais nobres são convocados a agir durante o papo. Foi o que ocorreu com esse repórter em 16 de janeiro, na Álvares Cabral 414, quando o Jornal Beagá teve a honra de ser recebido pelo arquiteto e urbanita Gustavo Penna.

Um dos mais ilustres cidadãos belorizontinos respondeu, gentilmente, durante uma hora as nossas curiosas perguntas, fazendo questão de ser tratado por "você". As linhas a seguir relatam a conversa sobre a Campanha Janela Aberta, a capital mineira e seus quase 50 anos de carreira. O objeto central dessa reportagem, a Janela Aberta, pretende desedificar uma construção que alterou o projeto inicial dos edifícios Sulamérica e Sulacap, construídos na década de 40 na região central da capital. Para tanto, os organizadores pretendem arrecadar cerca de cinco milhões de reais, colocar a baixo o anexo irregular e restaurar as edificações originais.

O objetivo final é devolver ao hipercentro suas características de ponto de encontro e convivência. A iniciativa conta com apoio e engajamento de arquitetos, urbanistas, acadêmicos, empresários e cidadãos, sendo Gustavo Penna um de seus porta-vozes.

Confira a entrevista:


O QUE É A CAMPANHA JANELA ABERTA?

Para falar de Janela Aberta, eu vou lembrar do Jaime Lerner. A campanha é um movimento de acupuntura. Você vai agir em uma área extremamente visível da cidade desedificando e, ao fazer isso, eu tenho certeza que uma série de outras ações análogas vão acontecer.

Isso é um gesto. Retirar o anexo não conforme, deselegante, desarmônico e ofensivo é uma atitude de esperança. É uma atitude daquele que pratica a ação de esperançar, tem a capacidade de acreditar que existe um outro tempo. Todos esses prédios disformes que envolveram prédios históricos, que agrediram, podem ser suprimidos. Nós podemos fazer uma cidade toda permeável, cheia de parques, com a maior tranquilidade porque isso faz falta.

POR QUE A HISTÓRIA DESSES PRÉDIOS PRECISA SER CONTADA?

Se eu falo de arquitetura e falo de cidade, não estou falando de supérfluo, estou falando de necessidade fundamental. O homem vive na cidade. Uma cidade organizada é fundamental para a cidade do homem, para que você constitua uma nação, uma cidadania, que você valorize seu ganho cultural, seu ganho tecnológico. Estou afazendo um projeto agora que se chama GeneroCidades.

Generosidade é diferente de gentileza. Generosidade é um compromisso com a cidade. Na arquitetura é aquilo que você faz sobre o tecida da cidade, sobre o corpo da cidade para durar e ser instrumento de convivência, troca, para durar e ser instrumento de convivência, troca, sociabilização. Por isso, todos nós precisamos nos juntar e fazer o Janela Aberta. Fazer isso acontecer.

Toda vez que eu vou conversar com um homem público e ele transforma esse discurso numa coisa de um sujeito fora da realidade, eu falo: Gente, por favor! Se você não tem capacidade de amar, gostar de algo, melhor não ser político.

O QUE REPRESENTA A DESEDIFICAÇÃO DO ANEXO DOS EDIFÍCIOS?

A coisa mais importante do mundo é uma cidade onde você é convidado a sair de dentro do seu apartamento, do seu egoísmo e conviver com seu concidadão. Onde são esses lugares? As praças, calçadas, os largos, ou, às vezes, um prédio que abre um pátio no fundo. Isso é ferramenta de cidadania.

Os Sulacap e Sulamérica representam uma praça perdida. A Praça da Independência. Um empresário foi lá, pagou os vereadores, que concordaram em construir um prédio no meio de uma praça. Isso seria o nosso Rockefeller Center. Imagina que o Trumpo construísse um anexo no meio do Rockefeller. Não existe isso! Por isso, temos que retomar essas conversar e desedificar essas coisas.

Essa é a diferença do enólogo e o enófilo. Quando o enólogo (cientista) abre uma garrafa, surge uma questão. Quando surge uma questão, o enófilo abre uma garrafa.

E O PODER PÚBLICO NESSA HISTÓRIA?

Você tem orgulho da sua cidade? Os alemães têm orgulho, os espanhóis, os norte-americanos. Por que nós não podemos ter orgulho da nossa cidade? Belo Horizonte é uma cidade de segunda categoria? Isso não é algo supérfluo. Alguém que diga que isso é supérfluo precisa ser combatido. Isso é fundamental. Nossa vergonha na cara é fundamental.

Nós não podemos deixar que façam debaixo das nossas barbas a coisa estúpida que todo dia a gente assiste. Toda vez que eu vou conversar com um homem público e ele transforma esse discurso numa coisa de um sujeito fora da realidade, eu falo: Gente, por favor! Se você não tem capacidade de amar, gostar de algo, melhor não ser político.

VOCÊ DISSE QUE A CIDADE DEIXOU DE SER PENSADA PELOS POETAS. O QUE QUIS DIZER COM ISSO?

Barcelona é uma cidade medieval, cercada por uma cidade planejada. Belo Horizonte é exatamente o contrário. Como você pode imaginar que construíram a cidade dentro da avenida do Contorno e depois deixaram o pau quebrar? É um horror. Por que fizeram isso? Nós precisamos deixar que a cidade seja pensada pelos poetas.

Por que os poetas são retirados da sala? "Com licença. Agora vamos falar de coisa séria". Aí só ficam os caras do laboratório, os analistas. Naquele momento, essas pessoas não estão amando a cidade. Estão resolvendo um problema. Essa é a diferença do enólogo e o enófilo. Quando o enólogo (cientista) abre uma garrafa, surge uma questão. Quando surge uma questão, o enófilo abre uma garrafa.

EXISTE RELAÇÃO DESSA COM A PRAÇA DA NOTÍCIA, COLOCADA NO SEU PROJETO DA CASA DO JORNALISTA?

A Casa do Jornalista era uma coisa interessante como conceito. Se o jornalista é quem denuncia a desumanização do espaço urbano, porque na hora de fazer sua própria casa ele não aproveita isso para exercer sua crença? Eu propus coloca o prédio começando a quinze metros de altura. Completamente fora do raio de visão da pessoa que passa e duas vigas de aço da nossa serra constituindo essa sustentação.

Isso gerava a Praça da Notícia, nome dado pelo Drummond. Quer dizer que isso bateu no coração do poeta. Isso tem tudo a ver com Janela Aberta, que quer exatamente o mesmo: oferecer convivência.


Gustavo Penna

Arquiteto e Urbanista

Formado pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde lecionou por três décadas. É arquiteto e fundador do escritório GPA&A.

Conquistou prêmios internacionais, como o The International Architecture Award, em Chicago, o World Architecture Festival (WAF), em Cingapura e o Architizer A+Awards, em Londres.

Seus trabalhos já foram expostos no Brasil e no mundo, dando destaque para a Bienal de Arquitetura, em São Paulo, a Bienal de Veneza, a Bienal de Buenos Aires, a Trienal de Arquitetura Mundial, em Belgrado e o Institut Français d'Architecture, em Paris.


É membro do Conselho Curador da Fundação Oscar Niemeyer e da Fundação Dom Cabral. Sócio-fundador da Academia de Escolas de Arquitetura e Urbanismo de Lingua Portuguesa (AEAULP).

Gustavo é autor de projetos como o Expominas (Centro de Feiras e Exposições de Minas Gerais), o Monumento à Liberdade de Imprensa, o Memorial da Imigração Japonesa, na Pampulha, os Museu de Congonhas (patrimônio cultural da humanidade), Santana e Regina Mundi, o novo Estádio do Mineirão, a Escola Guignard (considerada uma das 30 obras mais relevantes da arquitetura no Brasil).

Com 04 livros publicados, seus trabalhos já foram expostos no Brasil e no exterior, pelos principais sites, revistas e livros de arquitetura e design do mundo, como ArchDaily, Abitare, Architecture Now, Le Mounter Architecture Mars, Architectural Digest, Enlace, Monocle, Architectural Record, Wallpaper, SUMMA +, entre outras.